O que ensina o latim...

"Quod non est in actis, non est in mundo" ("O que não está escrito, não existe")

sábado, 30 de março de 2013

A nossa vizinhança

Enquanto escrevia a minha última publicação, dei por mim a pensar sobre qual seria a nossa vizinhança, a blogosfera económica portuguesa. Fiquei curioso, porque normalmente quando alguém publica um texto como aquele, ele costuma rodar pela blogosfera para encontrarem os erros e melhorá-lo.

Por exemplo, quando Bryan Caplan avançou com o seguinte problema ao público, the toothpick problem:
Suppose half of the sectors of the economy grow forever at 4%, while the rest completely stagnate. I'm strongly tempted to say that this economy's growth rate equals 2% forever. Anyone tempted to disagree? If so, why?
Ele recebeu recebeu várias respostas, propôs a sua, mas a pergunta finalmente recebeu a resposta que merecia, na minha opinião, pelo cunho de Brad DeLong: depende das elasticidades da procura.

Voltando ao tópico deste artigo. Conhecia apenas um par de blogues portugueses dedicados à economia, mas tirando proveito da lista de blogues que costumam divulgar no blogroll consegui encontrar bastantes. Mas vários encontravam-se inactivos, dedicavam-se sobretudo ao comentário político ou então não contribuíam muito para o assunto.

De todos, seleccionei os seguintes:
Começo por aquele que parece ser o mais conhecido da lista. Este blogue está associado ao Jornal de Negócios, sendo os seus autores de facto jornalistas no mesmo. Por vezes funciona como um agregador, publicando mensagens apontando os principais artigos sobre um tópico.

Este blogue é da exclusiva autoria da Helena Garrido, directora-adjunta do Jornal de Negócios. As publicações são um tanto esporádicas.

O seu autor é um professor da FEP, Pedro Cosme Vieira. Tirando o seu facto de eu dificilmente concordar com muito do que ele diz, ele tem o incrível hábito de anexar sempre uma foto de uma desnuda às suas publicações. Vá se lá saber porquê. Talvez o erotismo e a economia têm mais em comum do que eu desconfio.

Momentos Económicos... e não só é o nome completo do blogue. Quem o escreve é Pedro Pita Barros,  professor na FE-UNL, e é bastante prolífico. Se não me engano, a sua área de especialização é a Economia da Saúde, mas ele escreve um pouco sobre tudo.

À semelhança da Massa Monetária e deste vosso blogue, os Ladrões de Bicicletas é escrito por uma equipa de autores. Na lista de autores, reconheço o nome do João Galamba, economista e deputado pelo PS. A sua equipa faz questão de dar uso ao blogue, como se testemunha pela torrente de artigos, e escreve com afinco sobre sociedade, política e economia.

De todos os blogues, este devia ser o mais interessante só pelo mero facto de quem são os seus autores: Ricardo Reis, Pedro Pita Barros e Trigo Pereira entre muitos outros. Mas as publicações são escassas, pelo que julgando pelo seu potencial este é o mais despontante. Contudo, costuma ter comentários relevantes e perspicazes.
Uma particularidade deste blogue, é que, mesmo sendo dedicado à economia portuguesa, os autores escrevem em inglês.

E por aqui fica o meu levantamento sobre a blogosfera económica (ecosfera?) portuguesa.

Se conheces mais algum um blogue económico e português que não figure nesta lista, partilha-o connosco nos comentários.

sexta-feira, 29 de março de 2013

Baleias de regime

Na quarta-feira pela fresquinha estava a ouvir a Antena 1 quando me entrou pelo pequeno-almoço dentro a crônica diária dum tal Gobern.
Para quem não conhece a peça, melhor será informar-se antes de ler isto.


De partida, nada tenho contra indivíduos pesados, feios e pouco apresentáveis, mas sim contra seres pouco profissionais, oportunistas e arrogantes: não perde chance para se promover, usa e abusa da antena para debitar sentenças e é insuportavelmente convencido. Tudo isto a figura o é.

Começou nos comentários às coisas da bola na RTP, depois entregaram-lhe um programa de 2 horas aos sábados na Antena 1, já mais recentemente enfiaram-no noutro programa de futebol onde é pago a uns bons milhares de € para mandar bitaites com outros dois sortudos na RTP. E agora virou emplastro com uma crónica livre nas manhãs da rádio pública, onde também fala eternidades. O sr. tem um tacho bem simpático para a inutilidade das coisas que diz.
O que se segue? Um lugarzinho aos domingos na RTP lado-a-lado com o aldrabão farmacêutico?

É nestes tipos carreiristas que estamos a enterrar os nossos impostos. Será para este “serviço público” que serve a comunicação social do Estado?
Se é, as baleias que vão fazer regime para outras águas. Nas minhas não cabem!
E de caminho podem levar a RTP com elas: não parece fazer grande falta e a ração de que se alimenta poderia ser dada a animais de menor porte.

(História esta que se segue a outra já contada com igual craveira de produtividade pública)

quarta-feira, 27 de março de 2013

Estado canídeo


Este Estado judicialista, litigante, despesista e paralisante condenou-me a pagar 55€ por me ter feito acompanhar dum "animal canídeo" numa esplanada de praia vazia na Caparica fora da época balnear em Outubro.

A sentença veio anexada de um parecer de 4 páginas, que chamá-lo redundante é um elogio: cheio de expressões para “encher chouriços”, repetições e contradições (ora diz que estava na esplanada, ora diz que estava na praia). Coisa valiosíssima pela qual vou pagar uns adicionais 15€ (deve ter dado uma tarde inteira sem pausas para café ao imbecil que a escreveu).
O cão em questão (ou "canídeo", segundo o novo acordo ortográfico) é o ser mais pacífico e obediente que se possa encontrar. Goldan Retriever, com experiência de trabalho junto de deficientes cognitivos. Pode-se-lhe enfiar a mão pela goela abaixo que ele acha normalíssimo. Nunca ladra. Quando vai à praia não sai do guarda-sol e não gosta de mar. E quando faz as suas necessidades, vai esconder-se na moita para não o verem.

Pergunta: a polícia marítima não tem mesmo mais nada para fazer? É destes burocratas que precisamos?
Depois venham-me dizer que não há funcionários públicos a mais e que a produtividade na Administração é elevadíssima.

terça-feira, 26 de março de 2013

As consequências do leilão da DECO


Ontem escrevi sobre os efeitos que espero que venham do leilão sobre o mercado mudando o comportamento dos consumidores: estes procuram o preço melhor com mais frequência e com maior sucesso, portanto exercendo força como um peso nos preços.

Hoje venho complementar essa análise com a estrutura de mercado, e portanto ver o impacto do leilão no mercado como um todo. Mas antes disso, deixem-me deixar claro que eu não conheço o mercado da electricidade de nenhuma forma em particular. Não sei como é regulado, como funciona, todos os concorrentes, a os custos, etc. Mas avanço, porque mesmo não sabendo, desconfio de alguns aspectos.

Adiante. Eis como vejo esse mercado (de consumo doméstico): a EDP detém o monopólio da produção, mas o mercado tem uma franja competitiva (Endesa, Iberdrola e Fenosa). A franja tem todo o interesse em crescer para ganharem escala e apossarem-se de parte do lucro da EDP, a EDP tem tudo o interesse que as pequenas continuem pequenas, para que não magoem os lucros da EDP. É esta a dinâmica que justifica o sucesso do leilão do lado da oferta.

Mas agora reparem, o mercado é um monopólio. Pode ter outros concorrentes, mas é essencialmente um monopólio, porque a EDP tem poder de mercado, é capaz de definir preços. E como qualquer aluno de Microeconomia sabe: com discriminação de preços, um monopólio é capaz de aumentar os seus lucros ainda mais. Se o produtor é capaz de identificar quanto cada um de nós está disposto, o chamado preço de reserva, ele pode comprar esse preço e portanto extrair todo o excelente do consumidor, aumentando o seu lucro.

E, o que o leilão acabou de fazer foi mesmo isso! A DECO acabou de criar um mecanismo que separa aqueles que estão dispostos a pagar mais pela electricidade que os outros. Este leilão acaba por separar aqueles que se dão ao trabalho de procurar preços mais baixos e têm informação, daqueles que não têm informação, são desconfiados da mudança e não se dão ao trabalho de procurar melhores preços, e portanto pagam mais como consequência.


Na prática passamos de ter um mercado de electricidade, para dois, porque o produtor é capaz de discernir os consumidores agora: um para os preguiçosos e outro para os pesquisadores. No primeiro caso temos uma curva da procura muito inelástica, e no segundo uma mais elástica.

Naturalmente, como a estrutura de custos é a mesma, mas a elasticidade da procura é inferior no primeiro caso, o preço será superior no mercado dos preguiçosos do que no mercado dos pesquisadores.


Portanto, uma consequência deste leilão seria o aumento do preço para aqueles que não aderiram ao leilão, caso não houvesse um regulador e se as empresas fizessem actualizações imediatas para o preço óptimo. Mas já que se admite que há rendas no sector energético, isto é, lucro excessivos então diria este regulador não faz um trabalho de primeira na defesa do consumidor.

No fim temos duas boas razões para aderir ao leilão da DECO: entrasse no mercado liberalizado a um preço menor do que seria noutro caso e evita o aumento do preço por ficar no mercado dos preguiçosos.

segunda-feira, 25 de março de 2013

O leilão de electricidade da DECO


O Público recorda-me de algo que já queria escrever há umas semanas. Hoje venho chamar a atenção para o leilão da DECO sobre a tarifa da electricidade. Este leilão vem facilitar a busca do tarifário óptimo para o consumidor, busca essa que consome tempo e é difícil de discernir, além de proporcionar o empurrão para essa mesma busca.

O principal argumento do leilão é que “juntos pagamos menos”, ou seja, quem adere procura pagar menos na tarifa da electricidade, fazendo valer o poder negocial do conjunto. Mas acredito que os resultados mais positivos resultarão da dinâmica que resultarão do leilão ao longo dos próximos anos.

Explico. Pelo que percebi do site do leilão, um utilizador regista-se junto do site e fornece dados sobre o seu consumo de electricidade. Durante o leilão, todos os fornecedores de electricidade são convidados a licitar uma tarifa mais baixa. Com os dados facultados à DECO, ela estima quanto o utilizador gastaria segundo o tarifário actual e aquele que lhe é mais vantajoso, daqueles que são licitados. O utilizador não é obrigado a aceitar o contrato resultante do leilão, mas se o aceitar o contrato tem uma duração de 12 meses.

Já agora, o leilão está aberto a novos participantes até 30 de Abril, 2 de Maio começa o leilão e a partir de 15 de Maio os participantes receberão uma mensagem com o resultado. Também é importante referir que só podem aderir casas em território continental e que a DECO é capaz de «vir a receber uma comissão por cada contrato assinado pelos consumidores junto do fornecedor que ganhar o leilão». Mas quem é membro da DECO receberá a totalidade da comissão, e nos outros casos a DECO reterá parte dessa comissão, a fim de cobrir custos administrativos.

Ou seja, como resultado directo do leilão, durante 12 meses o utilizador poupa na conta da electricidade, mas e passados esses 12 meses? O contrato termina e o fornecedor faz uma oferta. Mas o que realmente importa é que os utilizadores terão uma maior propensão a fazer uma busca ao mercado para procurar um contrato que mais lhe agrade, e também já terão experiência nessa área. Para mim, este maior cuidado com os contratos que são firmados, a busca pelo menor preço, é o principal benefício para os consumidores, pois exercerá força para que os preços subam menos ao longo do tempo.

O meu conselho é para que adiram ao leilão, porque a tarifa vencedora será quase certamente inferior à que já paga, e até porque não são obrigados a aceitar o resultado. Para participar basta dirigir-se à página web https://www.paguemenosluz.pt/ e preencher o formulário.

Actualização: o Público informa que o leilão angariou meio milhão de pessoas.

sábado, 23 de março de 2013

Propaganda Portuguesa (O que achamos que o mundo deveria saber sobre nós...)

Desde que se fala em resgate financeiro em Portugal (ou Troika, ou em Vítor Gaspar, ou no que lhe quiserem chamar) que alguns portugueses sentiram um "chamamento patriótico" que os leva a proclamar o que de bom Portugal tem. Umas vezes bem, outras completamente descabidas, ora para pedir dinheiro à Finlândia, ora para pedir dinheiro à Alemanha, lá se foram empestando as redes sociais com vídeos alusivos a grandes factos e episódios que na "Ocidental Praia Lusitana" ocorreram.


Independentemente da motivação, este género de iniciativa utiliza métodos semelhantes: apresentar estatísticas e casos de sucesso. O problema é que, na maioria dos casos, as estatísticas são escassas e os casos de sucesso uma gota no oceano. A questão não se coloca pelo facto de se apresentarem estes dados, na minha opinião o lado mau destas iniciativas é serem necessárias para nos relembrarmos daquilo em que somos bons. Mas passando aos vídeos, estão abaixo agrupados em 2 categorias: os bons (com o mínimo de gosto e coerência) e os dispensáveis.

Bons Vídeos:

"From Portugal To Finland With Love!"

"Like Portugal - Portugal, o lugar para crescer!"

Ambos os vídeos apresentam factos acerca do nosso país, no primeiro caso factos positivos e negativos, dando a conhecer a realidade e a História de Portugal à Finlândia e ao Mundo. Já o segundo, não só mostra Portugal ao Mundo, mas também aos portugueses, para que se lembrem do que Portugal tem de melhor.

Dispensável:

"Ich bin ein berliner"

Esta iniciativa do ex-líder do PSD e comentador Marcelo Rebelo de Sousa é dispensável porque a interpretação dos factos apresentados faz transparecer uma ideia de subserviência à Alemanha e de como temos sido uns bons "alunos", sendo ainda uns "coitadinhos" que precisam de umas esmolas germânicas.

Após terem sido visualizados os vídeos, que mais há a dizer? Pegando nos bons exemplos, o que há a dizer é que por mais que se tente elevar o nome de Portugal no exterior, vão sempre existir idiotas a estragar tudo (ver abaixo). Não sou a favor de manifestações, não sou pessoa de ir berrar para a rua com o "povo". Não que não perceba quem lá vai e os seus motivos, mas acho que quem convoca as manifestações não tem qualquer interesse em melhorar a situação do país, mas em criar ruído a boas ideias e alguma confusão (para não falar na promoção pessoal!).



"14 th November 2012 Portugal WAR"

E para terminar, deixo mais um bom exemplo, desta feita de humor inteligente e sátira social.

 "Não, Não e Não - O que os Finlandeses Deviam Saber Acerca de Portugal"


sexta-feira, 22 de março de 2013

Água e cidadania

Ontem reparei que apesar de chover copiosamente durante horas, o sistema de rega de um terreno foi accionado na mesma. Ora, isto é apenas um exemplo pitoresco do contínuo desperdício de um recurso extremamente valioso que acontece constantemente a nível nacional. Diga-se de passagem que os aspersores pareciam estar em modo turbo.

Aparentemente, sou o único que repara nisto. Ou pelo menos sou o único que repara nisto agora. Se tivéssemos em seca já surgiam quinhentas vozes a descascar no abuso. Dito de outro modo, estamos perante uma situação típica de "esperar, ver, sofrer, lamentar".

E este desperdício tem o seu quê de paradoxal, quando estamos no século XXI. Até parece que o fulgor ambientalista das décadas de 80 e 90 nem surtiu nas gerações mais jovens, como até parece que hoje não vivemos rodeados de tecnologia capaz de resolver este problema de forma simples e eficaz.

Como cidadão, tenho dificuldade em tolerar este tipo de situações, e portanto fiz aquilo que como cidadão estava ao meu alcance: enviei um e-mail à Câmara informando-a do problema e de possíveis soluções.

A quem de direito,

Ontem à noite reparei que os jardins em frente ao Hospital de S. Bernardo (https://maps.google.pt/maps?q=Set%C3%BAbal&hl=pt-PT&ie=UTF8&ll=38.528824,-8.882014&spn=0.001278,0.002411&sll=38.528828,-8.881993&sspn=0.001278,0.002411&oq=Set&t=h&hnear=Set%C3%BAbal&z=19) eram regados por um sistema de rega automática accionados à uma da manhã.

Acontece que a essa hora já estava a chover bastante há algum tempo - umas quatro horas. Portanto, regar a essas horas e nesse dia era dispensável; pior, a rega era um desperdício de água.

Penso que os terrenos em causa são da responsabilidade da Câmara Municipal, pelo que chamo-vos a atenção para esta situação e proponho as seguintes soluções.

Não sei os pormenores do sistema, mas duvido que seja um relógio mecânico a coordenar a rega, mas sim um programa de software. Logo, com o actual sistema, a solução mais simples e barata, seria a verificação da queda de precipitação nas últimas horas antes de accionar os aspersores. Se a precipitação for superior a X nas últimas Y horas, então não se ligam os aspersores nesse dia. Creio que a informação sobre precipitação é recolhida e divulgada ao público pelo Instituto Português do Mar e da Atmosfera.

A solução anterior tem os seus problemas, pelo que um programa mais complexo que incluía uma previsão de precipitação para os próximos dias, uma estimativa da quantidade de água presente no solo dadas as variáveis relevantes.

Uma outra alternativa passaria pela substituição do sistema de rega, por um mais inteligente, capaz de analisar a quantidade de água disponível no solo. Mas esta solução só devia ser empregue quando for necessário substituir o sistema, como suspeito que que não seja muito melhor que a solução anterior.

Se ainda não houver uma boa resposta a este problema no mercado português, então esta é uma boa oportunidade para estimular o empreendedorismo dos estudantes e dos professores do IPS. Para resolver este desperdício de água, a Câmara pode propor um desafio/concurso à comunidade do Instituto Politécnico de Setúbal. Tantos os professores como os estudantes hão-de saber escrever o programa necessário, como também deverão saber construir o modelo matemático que optimiza a alocação da água.

Uma boa gestão dos nossos recursos hídricos é fundamental. Tanto será mais importante quando o desperdício acontecer em tempos de seca e não de inundação.
E pelo que vejo agora no Público, a ERSAR anda a estudar a gestão dos recursos hídricos em Portugal. É bom que tenhamos um interesse colectivo naquilo que nos tem para dizer. Portugal tem um sério problema na gestão dos seus recursos hídricos, e receio que só dará a devida atenção a este problema quando uma forte e prolongada seca nos atormentar.